Transporte

Centro Técnico Brasil da Cummins faz 40 anos

Escrito por Roberto Nunes

Em 1986, quando a Cummins iniciou as atividades de seus primeiros laboratórios de desenvolvimento e validação de motores em Guarulhos (SP), desenvolver um motor era um processo muito diferente do atual. A instalação em bancada podia consumir praticamente um dia inteiro, a instrumentação era predominantemente analógica e grande parte das medições era realizada manualmente. Na avaliação das emissões, a opacidade da fumaça ainda era um dos principais parâmetros analisados, muito antes da chegada dos modernos sistemas capazes de medir com precisão cada poluente emitido.

Marcelo Júlio Hernandes, operador de Dinamômetro Especialista Sr., acompanhou de perto essa transformação. Em seus 40 anos de Cummins, viu os processos analógicos darem lugar aos sistemas digitais de aquisição de dados e a capacidade de análise avançar na mesma velocidade em que os motores incorporavam novas tecnologias. Sua trajetória atravessa diferentes fases da evolução do centro técnico e ajuda a dimensionar uma mudança que não ocorreu apenas nos equipamentos, mas também na forma de desenvolver, testar e validar um produto.

Quatro décadas depois, aquela estrutura transformou-se no Centro Técnico Brasil, ou BTC (na sigla em inglês, Brazil Technical Center), um dos principais polos de engenharia da Cummins no mundo. Hoje, o centro desenvolve, valida e apoia a certificação de tecnologias destinadas às aplicações rodoviárias, fora de estrada, geração de energia e outras aplicações industriais, acompanhando a evolução da indústria automotiva e preparando soluções para os próximos ciclos regulatórios e para a transição energética.

Essa transformação acompanhou a própria evolução dos motores. A introdução da eletrônica embarcada, dos sistemas de controle de emissões, do pós-tratamento, da conectividade e das diferentes rotas energéticas ampliou a complexidade do desenvolvimento dos produtos. Cada nova geração passou a exigir maior capacidade analítica, infraestrutura laboratorial mais sofisticada e metodologias capazes de reproduzir com precisão as condições reais de operação.

“O Centro Técnico sempre esteve alguns anos à frente dos produtos que chegam ao mercado. Antes que um novo motor entre em produção, ele já passou por milhares de horas de desenvolvimento e validação aqui. Nossa missão sempre foi antecipar desafios e garantir que cada tecnologia esteja preparada para enfrentar as condições reais de operação”, afirma Raphael Lomonaco, líder do BTC da Cummins.

Ao longo dessa trajetória, o papel da unidade mudou profundamente. Hoje, o BTC participa diretamente do desenvolvimento de novos produtos, da validação de componentes, da definição de calibrações, da nacionalização de sistemas e da construção de metodologias que apoiam programas globais da Cummins.

Essa ampliação de competências também transformou o próprio ambiente de formação dos profissionais. Paulo Macena, mecânico de Motores Especialista Sr., há 36 anos na Cummins, define o laboratório como uma “faculdade na prática”, ou seja um espaço onde o conhecimento é construído diariamente por meio da experimentação, da análise técnica e da busca permanente por soluções. Ao longo desse processo, a experiência acumulada passou a ser compartilhada entre diferentes gerações de profissionais, acompanhando a crescente complexidade da engenharia.

As condições de operação encontradas na região tiveram papel decisivo nessa evolução. Diferenças de altitude, topografia, clima, qualidade dos combustíveis, longas distâncias percorridas, sobrecargas e diferentes perfis de utilização exigiram soluções específicas de engenharia. Os procedimentos desenvolvidos para validar motores nessas condições passaram a gerar conhecimento incorporado a programas internacionais da Cummins.

Essa evolução também acompanhou as sucessivas mudanças nas legislações ambientais. A cada novo ciclo regulatório, os motores tornaram-se mais eficientes e, ao mesmo tempo, significativamente mais complexos. O laboratório acompanhou esse movimento, incorporando analisadores de gases de alta precisão, sistemas para medição de material particulado, dinamômetros transientes, salas climatizadas, equipamentos para medições de emissões em condições reais de operação e infraestrutura capaz de reproduzir diferentes cenários ambientais e operacionais.

Preparado para diferentes mercados – Atualmente, o BTC reúne competências para atuar em projetos destinados às legislações EURO III, EURO V e EURO VI, sustentadas pelas certificações internacionais R49.06, R85.05 e R24.05 junto ao Vehicle Certification Agency (VCA), do Reino Unido. O centro também foi reconhecido pelo VCA como aderente aos requisitos da ISO 17025, tornando-se a primeira unidade técnica da Cummins no mundo a conquistar esse reconhecimento em conjunto com a autoridade britânica. A estrutura ainda atende aos requisitos da ISO 17034, fortalecendo a rastreabilidade, a repetibilidade e a confiabilidade dos resultados produzidos.

Outro avanço importante foi a preparação do BTC para conduzir ensaios conforme os requisitos das legislações norte-americanas EPA (Environmental Protection Agency) e CARB (California Air Resources Board). Esse processo envolveu investimentos em infraestrutura, atualização de equipamentos, desenvolvimento de metodologias, qualificação das equipes e adequação dos processos laboratoriais aos padrões regulatórios dos Estados Unidos.

Expansão da engenharia – A ampliação da infraestrutura também se refletiu no volume de atividades desenvolvidas pelo BTC. Entre 2020 e 2026, o centro técnico contabilizou mais de 18,4 mil ensaios voltados ao desenvolvimento, homologação, certificação, auditorias e programas de Conformidade de Produção.

Entre 2021 e 2025, o volume anual de ensaios cresceu aproximadamente 300%, refletindo a ampliação da infraestrutura, da capacidade técnica e da participação do BTC em programas de desenvolvimento, homologação, certificação e conformidade destinados ao Brasil e a outros mercados da América Latina.

Os indicadores também mostram a abrangência da atuação, com 48% dos ensaios relacionados às exigências do Proconve, enquanto 43% atendem às legislações EURO III, EURO V e EURO VI adotadas por diferentes mercados da América Latina. Essa evolução também se reflete na conexão entre o desenvolvimento realizado no centro técnico e sua aplicação na produção em série, processo acompanhado por Valdeci Nascimento, engenheiro da Qualidade Sr., que iniciou sua trajetória como aprendiz e soma 41 anos de Cummins.

“O trabalho não termina quando o teste acaba. O que aprendemos no desenvolvimento precisa chegar à produção de forma consistente para que o produto entregue, na aplicação, aquilo que foi validado pela engenharia. Acompanhar esse caminho, do laboratório até a produção em série, também mostra como o Centro Técnico passou a ter um papel cada vez mais integrado dentro da Cummins”, afirma Valdeci.

Investimentos ampliaram a modernização e capacidade técnica – Nos últimos cinco anos, aproximadamente US$ 6,2 milhões foram investidos na modernização da unidade. Os recursos contemplaram novos equipamentos laboratoriais, ampliação da capacidade de ensaios, infraestrutura destinada às novas legislações, projetos ambientais, segurança operacional, digitalização e preparação para futuras demandas regulatórias.

Hoje, a infraestrutura integra o Centro Piloto, responsável pela validação de motores instalados em veículos e máquinas completos; o Laboratório de Mecânica Aplicada, dedicado aos ensaios estruturais, fadiga, durabilidade, vibração e ruído (NVH); e o Laboratório de Desenvolvimento de Motores, onde são realizados ensaios de desempenho, consumo, emissões, certificação e homologação. O conjunto permite reproduzir condições severas de utilização, incluindo simulações equivalentes a 5.200 metros de altitude e temperaturas de até -22 °C, reproduzindo cenários encontrados em diferentes regiões da América Latina.

A evolução da infraestrutura também foi acompanhada pela digitalização dos processos laboratoriais, com a adoção de soluções voltadas à automação da análise de dados, ao monitoramento dos ensaios e ao aumento da confiabilidade das avaliações realizadas pelo BTC. As soluções fornecem informações em tempo real sobre indicadores operacionais, apoiam a manutenção, reduzem desperdícios e ampliam a eficiência e a confiabilidade dos ensaios.

Sustentabilidade aplicada ao desenvolvimento – A modernização do BTC reflete a estratégia global Destino ao Zero, que orienta a evolução das operações e das tecnologias desenvolvidas pela Cummins. Na unidade, esse compromisso também se traduz em investimentos voltados à eficiência energética, à redução do consumo de água e à diminuição das emissões associadas às atividades de desenvolvimento e validação de motores.

Entre os principais investimentos está a substituição completa do sistema de geração de água gelada utilizado no Laboratório de Desenvolvimento de Motores. A modernização reduziu em 91% o consumo de energia desse sistema.

A unidade também recebeu uma usina solar fotovoltaica com 104 painéis, responsáveis por uma geração estimada de aproximadamente 61 MWh por ano, consumidos integralmente pelo próprio centro técnico.

Outro avanço importante foi a incorporação de dinamômetros regenerativos em quatro salas de testes. Durante os ensaios, esses equipamentos recuperam parte da energia gerada pelos motores e a devolvem ao sistema elétrico da unidade, reduzindo significativamente o consumo energético das operações.

Outro projeto em desenvolvimento prevê a substituição do atual sistema de resfriamento da unidade por uma tecnologia que reduz a necessidade de evaporação de água, com potencial para diminuir em até 70% o consumo hídrico do processo.

Ao longo dessas quatro décadas, a evolução tecnológica do BTC foi acompanhada pela construção e pelo compartilhamento de conhecimento entre diferentes gerações. Profissionais que participaram das primeiras etapas do centro técnico contribuíram para desenvolver métodos, formar equipes e disseminar competências que permanecem presentes na operação. A experiência acumulada tornou-se, assim, parte da própria capacidade de engenharia construída no Brasil.

“Equipamentos podem ser adquiridos e laboratórios podem ser modernizados. O conhecimento necessário para interpretar resultados, compreender o comportamento de um motor e transformar essas informações em engenharia é construído pelas pessoas ao longo do tempo. Essa experiência é o que permite ao BTC continuar evoluindo”, finaliza Lomonaco.

Sobre o Autor

Roberto Nunes

Deixe um comentário